sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Brain Damage

Geralmente os meses de novembro são ruins em minha vida. Talvez por antecederem o encerramento de ciclos e isso não ser necessariamente o meu forte. Em novembro, sempre estou atarefada, tentando fazer o melhor possível, implorando por férias ou por uma morte súbita que retire todas as responsabilidades das minhas costas.
Acabei de encerrar os últimos capítulos do meu TCC. Decidi falar sobre as significações do ato de comer – para o obeso, lógico, porque ainda não consigo pronunciar as palavras “anorexia” e “bulimia” tranquilamente. Eu tinha esperanças de encontrar respostas concretas, alguma definição, alguma pista, tinha esperanças de que fosse passar um avião com uma faixa escrito “VOCÊ SE COMPORTA ASSIM POR CAUSA DE TAL COISA”.
Não encontrei nada.
Desenvolver um trabalho sobre um tema tão intimo foi, na verdade, uma tortura. Fiquei meses tentando escrever e nada. Não conseguia ler sobre, todas as vezes que sentava para fazê-lo me dava um sono incontrolável, uma vontade surreal de fazer qualquer outra coisa que não aquilo. Perdi os prazos de entrega.
Talvez o dia em que eu compreender o que me fez ser assim, eu deixe de ser assim.  E não sei se quero deixar de ser assim. São dilemas de pré-adolescência e não sei se quero sair dessa fase e crescer. Lembro-me de falar aqui sobre uma dualidade de pensamentos e sentimentos: eu quero produzir coisas boas, ser lembrada por feitos legais; mas, ao mesmo tempo, eu ainda quero me desfazer, sumir sem deixar nenhum vestígio. Desaparecer.
Sempre que chega novembro me vejo em meio a esses devaneios. Quero seguir, mas estou pensando em ficar na cama sem comer até ser absorvida pelo colchão. Reconheço que devo ter uma força vital maior do que a destrutiva, porque apesar de, estou levando a vida a diante e me matando sutilmente com menos frequência. Mas o esforço para isso é tremendo! Sinto-me tão cansada às vezes, e penso que é de tanto me empenhar para não explodir com tudo.
Estive pensando em marcar terapia. Até liguei para ver o preço e os horários. “É muito caro”, “Não tenho tempo”. Sempre terão desculpas para não ficar bem. Não sei também se acredito que seja possível ficar bem, porém, gostaria de poder me compreender um pouco que fosse.
Sinto falta de definições concretas. Sou um pouco de tudo, o que talvez me configure como um “nada”. Gostaria de dar um nome à minha doença. Ou doenças. Percebem como é amplo? Quero me curar. Mas me curar de que? Metade da minha vida foi conturbada. Qual é a linha que separa o “eu saudável” do “eu doente”? Quem sou eu, afinal? Será que minha doença sem nome faz parte de mim, depois de todos esses anos? Odeio me sentir como um mosaico, que é um amontoado de cacos sem forma definida e sem absolutamente nenhum encaixe. Só estão ali, dispostos aleatoriamente formando qualquer coisa. É difícil pensar em uma solução para algo indefinido. 


4 comentários:

Senhora M. disse...

Eu entendo você, ou pelo menos acredito que sim. Também tenho pensamentos contrários sobre ficar bem ou mal - eis a questão - gostei da forma como você se expressa! Um baraço <3

Mariana disse...

Essa sua dor é tão como se fosse minha, dada a semelhança com as coisas que sinto, que eu nunca sei o que dizer quando venho aqui. De alguma forma, é como se você já tivesse dito tudo, então, eu me encerro num silêncio devastador enquanto sufoco as lágrimas ao ler cada uma dessas suas palavras. Novembro também não é uma época boa pra mim. Também fechei muitos ciclos neste mês. Mas foram ciclos que me destruíram por inteira e até hoje ainda tenho minhas dúvidas se todos os fantasmas foram mesmo embora ao fim desses ciclos. A verdade é que, talvez, eles nunca irão embora (por completo) de nós, nem nós deles. E, no fundo, talvez seja exatamente por isso que o mês de novembro doa tanto. De alguma forma, tudo ainda está por aqui, bem junto comigo. Conosco. E é isso o que dificulta as melhoras,o que inviabiliza essas "tentativas de produzir coisas boas" e/ou "de tentar ser lembrada por coisas legais". É isso, talvez, que ainda nos faz querer o desfazimento e o sumiço em detrimento de vivenciarmos uma vida longa e suave... Ademais, não espere conseguir nomear a sua doença para tentar melhorar. Há complexidade e vastidão demais em tudo o que te permeia e nela para que encontres um nome que a comporte em todos os seus termos e sentidos. Se eu pudesse dar um conselho, diria para você tentar melhorar sem focar nisso, diria para que tú vivas um dia de cada vez e vá identificando em que consistem os pensamentos que te fazem sentir como tú te sentes. E não desista da terapia, insista... Tome o remédio, ainda que em doses homeopáticas. No fim, talvez a cura consista em lutar um pouquinho todos os dias e não muito mais do que isso. E, lembre-se, antes de melhorar, sempre piora um pouco mais. Cuide em tentar atravessar bem tudo isso.

Linnah disse...

Saudade, bitch

Drella disse...

Realmente a escolha do TCC foi corajosa. Foi útil, com certeza deve ter aprendido muitas coisas. Muitas coisas do comportamento humano não tem respostas definitivas. Eu adoro aquela musica da bjork "human behaviour".
Sobre essa coisa amorfa que a gente se sente(eu também me sinto assim), eu tenho uma saída meio louca que é tentar adotar personalidades/características que eu gostaria de ter/ser. Sei lá o que é certo...